Relâmpagos no Silêncio

 São Bernardo do Campo, 18 de março de 2026.


As coisas que só demoram a vir na vida sempre ocuparam um lugar especial na minha alma. Não na mente, pois mesmo em suas subjetividades, ela é mais objetiva do que o coração e a alma. A morte é uma delas. 


Apesar de sempre haver acreditado no pós-vida; nesse fundo que é a alma, quase como um lazer temporário, era-me concedido por mim mesmo esquecer-me disso, e apreciar a sensação de fascínio em deixar de existir. “De que adianta a morte, se formos para outro lugar?”, disse em um de meus poemas. Isso porque para mim a morte sempre foi, mais do que fato inexorável, um presente, uma chance de escapar do pecado de existir.


Ora, se há outro plano de existência e somos, eventualmente, puxados de lá para cá; há menos o que se questionar. É o pressuposto anterior a esse que mais levanta a ira impotente: se, antes do tempo e do espaço, nada havia; o pecado original não é a nossa existência. É haver. Toda ideia de evolução, de amor, de beleza e vínculos pressupõe haver. Éons, universos, matéria, estrelas. Criação.


Criar é um ato de vaidade e responsabilidade, diretamente proporcionais ao autoconhecimento do criador. Este deve ser capaz de sustentar a sua decisão ou acidente, e será mais cobrado no primeiro do que no segundo.


Ainda assim, muito já me ocupei de matutar e até mesmo discorrer dessa vaidade. Não considero o assunto esgotado, mas inconclusivo. É o tipo de assunto a que devemos deixar o tempo acumular-se para poder ser retomado.


Hoje, há vaidades que julgo mais interessantes. Ou, no meu caso, a transição ontológica de vaidades que tem se constituído rito de passagem inevitável para mim. Eu, como a massividade dos seres humanos, sempre fui dotado de certa vaidade física. No entanto, foi no meu processo de saída da pré-adolescência para a adolescência que a notei como algo passível de um capítulo à parte das minhas características. Ao mesmo tempo natural e forjada.


Sempre me senti pequeno no mundo. Não como a maior parte dos seres humanos se vê diante do universo. Pequeno diante de outros seres humanos. Ironicamente, isso se aplica à minha altura, e não se pode dizer que tal fato não se constitua de considerável valor na equação. Mas não, antes disso: sempre me senti pequeno, indefeso, mudo, impotente. 


Simplificando o tema com arquétipos de uma roda de amigos na pós-modernidade, envolta em um mix de banalidades não-banalidades; eu sou aquele que sempre é cortado quando fala. Falam por cima de mim, ou eu falo livremente e, instantes depois, alguém repete o que acabei de falar, como se eu fosse o Bruce Willis no Sexto Sentido. Eu não me recordo de uma época da minha vida anterior a essa autoconsciência da minha fragilidade diante do meu eu frente ao resto do mundo. 


Porém, como se mostra recorrente no plano da existência, nasceu um objeto dicotômico para equilibrar esse sentimento: a firmeza da crença de que eu sou mais do que isso. Mas não com o objetivo direto de tentar me superar, e sim algo inerente em mim, que escapou como o magma do centro da Terra. 


E, ainda, em consonância com esse outro sentimento, um combustível que, ao longo de uma vida, se mostrou fonte dos meus maiores erros; e com o qual eu ainda não conseguiria viver sem: a fúria. Ah, e dessa furiosa sensação de que sou mais do que esse insignificante que vejo na frente do espelho todos os dias, nasceu a vaidade estética como escudo em forma materializada. 


Numa relação por vezes consonante, por vezes dialética; foram moldadas as minhas vivências, minhas felicidades e meus pecados. Não sei dizer se por excesso de pecados que cometi, pelo excesso cometido a mim, ou ambos; a luz foi enfraquecendo. 


Exceto pelos momentos em que surgem os relâmpagos.


O meu cotidiano passou a ser uma massividade sufocante de silêncios e escuridões, interrompida ocasionalmente por trovões e relâmpagos; as minhas tentativas furiosas de sair disso.


Cada vez foi se tornando mais difícil identificar quando comecei a me deixar apagar com tamanha intensidade, mas era fácil compreender a dificuldade de encontrar uma lanterna com uma pilha durável. 


Não posso dizer que tenho as pazes feitas com essa queda, pois o meu entendimento se alterna entre a sensação de que perdi anos da minha vida e a de que foi só graças a essa escuridão que consegui observar um pouco melhor o mundo e a mim mesmo. Uma nova vaidade: amadurecer.


Infelizmente, arrisco dizer que grande parcela da população considera amadurecer o conjunto de ações práticas que constitui um adulto funcional. “Trabalho, pago contas e impostos, sou sexualmente ativo e cuido da saúde; é claro que sou maduro”. Há de se reiterar que um grande número de pessoas capaz de fazer tudo isso não consegue reconhecer e admitir quem é por mais do que alguns milésimos de segundo, ou nem isso. 


Pode parecer pouco quando posto em palavras, uma vez que muito se perde nessa transposição de uma complexidade de pensamentos para a limitação das linguagens; mas é uma grande vitória para mim saber quem sou na proporção que sei. Sei os meus valores, até onde sou capaz de mantê-los ou abrir mão deles; tenho consciência das minhas contradições, inerentes a todos os seres sencientes; e visualizo as minhas tempestivas teias de emoções como uma bela pintura dadaísta ou surrealista.


Não sei dizer até onde os meus medos se assemelham aos daqueles que me cercam, mas sei que não são simplistas, como o medo da morte ou de partir sem deixar um legado forte. Tenho medo porque, em meio aos longos períodos de silêncio e escuridão, há breves períodos em que a luz ilumina o ambiente com cores quentes, sem nenhuma relação com os relâmpagos. É uma luz graciosa, que orna a minha alma e a torna convidativa a ser amada. O meu medo se dá porque depois que essa luz se esvai, quem me ama de verdade ainda fica; e me apavora que a minha escuridão possa destruí-la.


Eu sinto medo, e sinto que fui uma fraude, porque ainda que sincera, a graciosa luz é uma estrela em uma galáxia de matéria negra. E eu não sou forte ou frio o bastante para não deixá-la entrar, e não eu mesmo me deixar entrar na vida dela, também. Às vezes eu me sinto forte o bastante, como um soldado exaurido de corpo e alma, mas que faz o seu corpo funcionar por mais quanto tempo necessário for. Nesses dias eu me sinto digno. Em outros, sou um soldado que no instante em que colocou a cabeça para fora da trincheira, levou um tiro.


Ainda que a maturidade, que só é possível pela nossa inserção no tempo, traga novas perguntas em maior velocidade do que consiga responder às anteriores; eu sei que vale a pena lutar por ela. Vale a pena ser um pouco mais cinza com conhecimento, sob a esperança de que quando voltar a me iluminar, será muito mais sincera e serena do que a luz dos ignorantes. Esse cinza é inexorável, faz parte do caminho. O único jeito de evitá-lo é não percorrer nenhum caminho.


Por fim, é essa ideia de que, ainda que cada um com as suas particularidades, cada alma no universo — no passado, presente ou futuro — é constituída dessa beleza de complexidades; que me faz ficar um pouco menos distante de compreender a Criação. Se nada houvesse, seria (com o perdão do uso do verbo) tudo mais simples, mas cada história perder-se-ia. A não existência é o cinza em sua forma eterna: não é uma passagem da escuridão para a luz, como o conhecemos. É a ausência do que não existiu e a presença do nada. Eu nunca saberia o que é sentir cada dor que já me afligiu, e por isso seria incapaz de sentir cada aspecto de cada amor, de cada esperança, idiossincrasia, e de cada regozijo que já percorreu e impregnou a minha alma.


Eu escolho ser. Se possível, só gostaria de pedir que o universo me ajude a fazer parte dele, que possamos construir alicerces mais firmes para a nossa relação. A possibilidade de alinhamento é uma das verdadeiras belezas do diálogo, e ainda acredito que o universo possa me ouvir. Esta é a minha carta para ele.


Com o coração aberto,


Lucas Giesteira Unger


Comentários

Postagens mais visitadas